Violência na arte contemporânea brasileira

Em consequência dessa mútua hostilidade primária dos seres humanos, a sociedade civilizada se vê permanentemente ameaçada de desintegração

Sigmund Freud

O crime é o próprio inferno

Nelson Rodrigues

"111", DE NUNO RAMOS: sobre o massacre do Carandiru | Fonte: site do artista

“111”, DE NUNO RAMOS: sobre o massacre do Carandiru | Fonte: site do artista

Um livro de capa branca com quase 900 páginas em branco baleado por um projétil de revólver calibre 38. Trata-se de Balada (1995), obra econômica e contundente criada por Nuno Ramos. À medida que o leitor vai penetrando no livro, passa pelas páginas limpas do início até chegar a uma página impactante com o furo preciso em torno do qual se formou a mancha decorrente da explosão do cartucho de pólvora; a violência do tiro atravessa a sucessão de centenas de páginas deixando o furo como rastro que fere, até que o projétil se aloja no interior do corpo do livro.

A palavra “balada” designa uma forma de poema ou um gênero musical, sentidos que estão presentes na obra de Nuno Ramos,  alargados pela aproximação com baleada. Ao ser aberto, o livro desperta a memória do estampido do tiro ressoando em seu interior, abafando, calando e eliminando todas as palavras. Entretanto, não está morto; ao contrário está repleto de significados; ainda que extraídas as palavras, suas páginas reverberam os enigmas e os choques envoltos nos crimes, o indizível que cerca a morte. Não há vazio nas páginas brancas e cada furo é mais que um ponto, é passagem por onde se pode atravessar de um lado ao outro, da vida à morte. Sem respostas. Somente perguntas. Trataria de uma das formas mais cruéis de violência que é a morte da liberdade de pensar e refletir criticamente sobre a realidade? Seria um longo poema policial tenso em sua brancura, que contém em apenas um tiro a memória de todos os crimes do mundo?  Seria uma obra cuja natureza  polissêmica provocaria no leitor a necessidade de preencher as páginas, de construir significados movendo um inquérito ficcional aberto às narrativas mais diversas sobre os crimes?

Existe uma história da criminalidade mostrada pela produção de arte contemporânea brasileira que trabalha sobre violência, marginalidade, segurança pública e justiça – ou suas ausências. A reflexão que aqui se inicia busca compreender como os artistas respondem à crua e atroz realidade que assola o país, e como a partir de suas respostas se manifesta a tradição social, política e ética no interior da arte brasileira. A discussão sobre a violência atravessa tanto as artes visuais quanto a literatura, a música e o cinema. A arte problematiza a vida da sociedade contemporânea e investiga seus pontos críticos. E a crise se manifesta nos níveis altíssimos de criminalidade, na população temerosa com a insegurança crescente, na fragilidade das  operações do Estado para conter a violência e debelar a criminalidade, nas instituições policiais ainda ineficientes, nos morosos aparelhos da justiça que operam com um Código Penal anacrônico, datado de 1940, e nos sentimentos públicos de impunidade e injustiça. Nessa zona de perigo a gravidade da crise aumenta à medida que de tanto se falar sobre a violência, se chega ao ponto de banalizá-la e de tratá-la com a indiferença de não se deixar afetar pela visão de corpos feridos ou mortos caídos no chão.

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Matéria publicada originalmente na Revista Caju por Divino Sobral
Artista visual, curador e crítico de arte independente. Vive e trabalha em Goiânia/GO.