Laboratório de Inovação Social: economia criativa, design, bem-estar e inovação social

por Gabriela Varanda

O termo “economia criativa” foi citado, pela primeira vez, em meados da década de 1990, na Austrália, no âmbito da formulação de políticas públicas de estimulo à economia movida pela cultura e criatividade, numa iniciativa chamada, na época, de Creative Nation. Economia criativa é, portanto, uma expressão criada para nomear modelos de negócio ou gestão que se originam em atividades, produtos ou serviços desenvolvidos a partir do conhecimento, da criatividade ou do capital intelectual de indivíduos, com vistas à geração de trabalho e renda. Ao contrário da economia tradicional, de manufatura, agricultura e comércio, a economia criativa, essencialmente, foca no potencial individual ou coletivo para produzir bens e serviços criativos. De acordo com as Nações Unidas, as atividades do setor estão baseadas no conhecimento e produzem bens tangíveis e intangíveis, intelectuais e artísticos, com conteúdo criativo e valor econômico.

Grande parte dessas atividades vem do setor de cultura, moda, design, música e artesanato. Outra parte é proveniente do campo da inovação tecnológica, como o desenvolvimento de softwares, jogos eletrônicos e aparelhos de celular. Também estão incluídas as atividades de televisão, rádio, cinema e fotografia, além da expansão dos diferentes usos da internet (desde as novas formas de comunicação até seu uso mercadológico).

Um dos maiores desafios do design atualmente, como atividade criativa, é reverter a expectativa de que a noção de bem-estar esteja necessariamente ligada à aquisição de novos artefatos. Para isso, é preciso promover uma redução do consumo de produtos e serviços sustentáveis, que, por sua vez, seriam compensados por um crescimento de outras formas de qualidade, a qualidade do contexto.

Para se redescobrir a qualidade de um contexto é importante, portanto, que a sociedade e profissionais de design contribuam para a construção de um mundo, onde artefatos tangíveis e intangíveis colaborem com novas demandas sociais, capazes de regenerar a qualidade do local onde se encontram.

Com o objetivo de promover essa nova ideia de bem-estar são necessários bens comuns de alta qualidade, produtos duráveis, eficazes, ecoeficientes e, principalmente, criar uma nova geração de produtos e serviços, concebidos como sistemas habilitantes, que colaboram para a obtenção do resultado esperado pelo usuário.

Existem muitos casos de design de atividades que podem ser consideradas “colaborativas”, e que valorizam a ideia de compartilhar bens. Por exemplo, serviços de cohousing (condomínios onde há áreas comuns, uma única lavanderia, por exemplo), carsharing (sistema de aluguel e compartilhamento de carros), carpooling (caronas agendadas, entre um grupo de pessoas), ou até mesmo a bicicleta de aluguel, como meio de transporte, e ainda o coworking (um mesmo espaço de trabalho, utilizado por várias empresas).

ONG Transporte Ativo em palestra durante Laboratório de Inovação Social (LIS), no LAB_71.

ONG Transporte Ativo em palestra durante Laboratório de Inovação Social (LIS), no LAB_71.

Esses novos serviços promovem uma mudança radical em escala local, são serviços participativos, e podem ser considerados casos de inovação social, já que possuem uma capacidade de articular interesses individuais e demandas coletivas e ambientais, colocando em prática iniciativas que introduzem novas ideias de sustentabilidade e de bem-estar.

Mas o que seria uma economia baseada na inovação social? Suas principais características estão relacionadas ao uso intensivo de redes distribuídas de gestão de relacionamentos, mobilidade e outras formas de comunicação, aproximação entre mercado produtor e consumidores, ênfase na colaboração e na interação, do que no consumo individual, e um peso relevante para os valores e a missão do projeto.

A inovação social colabora com novas formas de cooperação e colaboração. O arquiteto e urbanista Jaime Lerner, ex-prefeito da cidade de Curitiba, cunhou o termo “acupuntura urbana”, para descrever iniciativas em menor escala, pequenos projetos simbólicos, mas que possuem o potencial de criar “pontos”, que deixam uma cidade mais aberta para inovação.

São necessários seis estágios para transformar ideias em projetos de real impacto:

  1. Necessidades, inspirações e diagnósticos: nesta etapa, são identificados os fatores que indicam as necessidades para inovação, que podem ser: crise, corte de despesas públicas, baixa performance, estratégias, assim como inspirações e novas evidências. Esta fase inclui ainda o diagnóstico de um problema. Achar a questão correta permite encontrar com maior precisão a resposta certa, ou seja, identificar as causas de um problema específico.
  2. Propostas e ideias: esta é a etapa da criação de uma ideia, o que pode envolver métodos para formalizar insights e experiências, a partir de diferentes recursos.
  3. Protótipo e piloto: as ideias são colocadas em prática, numa primeira realização do projeto. O processo de refinar e testar as ideias são particularmente importantes na economia social porque, dessa forma, erros podem ser identificados, e resultados inesperados são resolvidos. Também é a fase em que se pode avaliar o futuro sucesso de uma iniciativa.
  4. Sustentação: a ideia é inserida na prática diária. O que inclui atribuir maior definição para o projeto, e obter recursos financeiros que garantam a sua continuidade, além de identificar equipe de profissionais e a legislação específica da área.
  5. Escala e difusão: aqui é definido um conjunto de estratégias para desenvolvimento e divulgação de uma inovação. É o momento em que o projeto ganha escala, embora, na economia social, esse crescimento seja realizado de maneira mais orgânica, em relação ao mercado de produção em massa.
  6. Mudança sistêmica: é o objetivo principal de uma inovação social. A mudança de um sistema inclui a interação de vários elementos: movimentos sociais, modelos de negócio, leis e regulação, infraestrutura e novas maneiras de pensar e agir. Mudanças sistêmicas envolvem novos frameworks e arquiteturas construídas a partir de pequenas inovações. Inovações sociais geralmente se deparam com obstáculos e reações hostis. Empreendedores pioneiros devem superar essas barreiras, mas é necessário que novas condições sejam criadas para tornar as inovações economicamente viáveis. Essas condições incluem fatores como o desenvolvimento de novas tecnologias.

Empresas sociais bem-sucedidas são frequentemente baseadas numa localidade particular, com atuação construída sobre um profundo entendimento das necessidades locais e inseridas numa forte rede local. Por meio desses insights, empresas sociais estarão bem posicionadas para entregar soluções eficientes e inovadoras, direcionadas para as redes locais.

Empresas sociais podem ser a chave para a agenda do desenvolvimento local. Onde existe mercado, empresas sociais podem auxiliar comunidades em direção a uma maior autonomia, criando soluções que podem ser reinvestidas na própria comunidade. Essas empresas, em geral, reforçam o poder de voluntários, providenciando emprego local para os residentes e usuários de serviço. Por meio dessa prática, elas promovem a circulação do dinheiro dentro da economia local.

A sustentabilidade social deve ser vista como um processo de criar iniciativas locais sustentáveis e bem-sucedidas, que promovam o bem-estar, a partir da identificação das necessidades de uma população, em relação ao lugar onde elas vivem e trabalham.

Criar cidades e comunidades que trabalham com responsabilidade social, econômica e ambiental, e que serão sustentáveis em longo termo, é um dos maiores desafios deste século. Muito já é conhecido sobre como governantes, urbanistas, arquitetos e empreendedores podem trabalhar juntos, para integrar esse pensamento na prática profissional, assim como nas políticas públicas.

Para fazer isso, são necessárias evidências e experiências práticas para reforçar o caso da sustentabilidade social no planejamento de novas comunidades, que são criativas, assim como parceiros que também são criativos, para construção de iniciativas bem-sucedidas. Pesquisas são fundamentais para se avaliar o que a sustentabilidade social significa para essas comunidades, da mesma forma que ferramentas são importantes para medir a eficiência de diferentes ações, em comunidades distintas.

Providenciar infraestrutura social significa implantar atividades, recursos e suporte que fortaleçam as qualidades, as habilidades e a confiança das pessoas, e dos grupos, para que eles tomem decisões, e assumam papéis de destaque no desenvolvimento de suas comunidades.

Atores sociais e culturais são identificados como elementos essenciais para que esse objetivo seja alcançado, pela sua importância e sua contribuição numa determinada comunidade. Algumas áreas são identificadas como importantes para o apoio da vida social e cultural: um senso de identidade de comunidade e pertencimento, tolerância, respeito e engajamento com pessoas de diferentes culturas, background e crenças; amizade, cooperação e comportamento solidário nas comunidades; oportunidades para atividades culturais, de lazer, esporte e outras atividades; baixo índice de crimes e de comportamentos antissociais visíveis; políticas públicas eficientes e oportunidades para que todos possam ser incluídos socialmente.

Um dos desafios para construir comunidades socialmente sustentáveis é a dificuldade de identificar ferramentas para medir seu sucesso. Projetos voltados para a inovação social promovem a recuperação do tecido social e ambiental, e sua implantação e seu bom funcionamento dependem, em muito, do contexto sociocultural onde estão inseridos.

 

Gabriela Varanda é coordenadora do Laboratório de Inovação Social (LIS)
varanda.gabriela@gmail.com