Censo Coworking Brasil 2016: o melhor momento, mas é preciso amadurecer

Sobre a pesquisa deste ano: veja o infográfico e alguns pensamentos que tecemos sobre estes dados.

É um ótimo momento para o coworking no Brasil. Só se fala disso. Em termos de coworking como negócio, o mercado cresceu 52% em relação aos números levantados em 2015, e como prática, nunca foi tão difundida em novos modelos de negócio. Vamos falar um pouco sobre estes números — parte do levantamento que fazemos desde o ano passado, e se mostrou extremamente importante para ilustrar a cena no Brasil, servindo como fonte para áreas acadêmicas, imprensa e investidores.

Por que cresce

Ao mesmo tempo em que já há um turnover no mercado, há também um crescimento graças à uma nova base de usuários que vem da desistência de escritórios tradicionais e precisa diminuir custos — 2015 foi o começo da crise, e temos que levar isso em conta. Há também uma mudança de cultura nas grandes capitais, que estão se acostumando mais a espaços compartilhados de trabalho, o que puxa muito do movimento.

Outro fator que pode determinar crescimento é a adoção da prática de coworking por mercados menos saturados disso — hoje está muito concentrado em tecnologia e comunicação, e já temos iniciativas em moda, gastronomia e até dedicados a perfis específicos, como mães. Um mercado mais diverso sempre é mais saudável.

Mesmo assim o coworking deve se fragmentar mais, especialmente entre cidades do interior que são mais pólos de trabalho que ainda não tem essas opções.

Expansão e expertise em pauta

Outro fator que dinamiza, e isso desde o ano passado, é a evolução de alguns espaços enquanto negócio. Marcas como Juntus (Londrina), Nex (Curitiba) e CWK (Belo Horizonte) estão em expansão, abrindo novas franquias/espaços da mesma marca. E o curioso: são espaços bem diferentes entre si. Boa parte disso se deve ao êxito comercial, claro, mas eu credito também ao sucesso pessoal dos founders enquanto influenciadores de suas áreas. Quanto mais hábil o founder, mais ele se entranha na tecelagem do networking de seu espaço e passa a ser mais um netweaver do que um manager. Quando o gestor consegue aliar o sucesso do coworking como negócio ao sucesso como comunidade, temos aí fórmulas que valem a pena ser seguidas e entendidas com calma por quem quer se empenhar neste mercado.

Alguns exemplos bem claros disso: a Plug, espaço de coworking de São Paulo, empresta seu expertise para o gerenciamento do espaço Cubo, iniciativa do Itaú com a Redpoint Ventures. O Impact Hub São Paulo tem em seus founders pessoas que já trabalham para grandes marcas em consultorias para criação de open spaces.

O boom dos super-espaços

Falando nisso, prevejo que as capitais devem dar mais espaços a iniciativas maiores como o Cubo e o Google Campus, que já foram pauta por aqui — a tendência é que espaços como estes proliferem. Temos desde bancos e empresas de tecnologia até agências de publicidade criando seus “cantões” para empreendedores.

E por que há essa demanda forte por estes “super espaços”? Porque o mercado, em dias de seca, deseja inovação mais do que nunca, ainda mais quando não a acha dentro de casa. E a aposta atual é que toda essa inovação sairá de startups que possuem toda a estrutura possível para brilhar — incluindo estrutura física, mentoria, aceleração, preparação, ambiente… Quando empresas como o Itaú, a Porto Seguro e até o Google abrem seus grandes espaços de coworking por aqui, é para suprir essa demanda. E isso tende a inflar bastante os números referentes ao coworking no Brasil.

É fácil os donos de espaços de coworking se perguntarem “Ué, mas pra que esse espaço grande, se aqui eu tenho vaga sobrando e só vai criar concorrência pra mim?” Bom, na verdade essa demanda de aceleração e mentoria tem pouquíssima concorrência no país. Poucas iniciativas de coworking no Brasil estão preparadas para ir além de oferecer estrutura física. Então, existe uma lacuna onde acredita-se que com investimento e poder de fogo, nascerão grandes empreendedores. É um bom raciocínio, que agrada a comunidade startuper em cheio. Estes super-espaços estão prontos para fazer as empresas decolarem (ou morrer tentando), e é natural a migração de usuários de espaços para um local onde as coisas estão acontecendo.

E é neste ponto que eu acho que deve-se acender a luz vermelha. O que pode matar os espaços não é outro espaço nascendo, e sim o turnover de clientes. Claro, não deve ser um padrão que todo espaço de coworking deva ser uma aceleradora — mas se os clientes buscam isso em outro lugar, é hora do coworking “tradicional” repensar seu modo de ver o seu usuário. E tem outra: sabe qual é o principal competidor do coworking? O home office. Esse sim deve crescer muito com a crise. É a primeira opção de quem, sem perspectiva, começa a trabalhar em casa.

O turnover de espaços de um ano para outro (e é a primeira vez que medimos este número) deve ser analisado com muito cuidado, justamente pelos diversos fatores. A dificuldade de atuar em um local com muitos players, de explicar para os clientes o conceito (sim, ainda é uma dificuldade pra boa parte) e de monetizar a iniciativa. É hora de diversificar as atuações. O founder deve atuar mais como um desbravador do que como um fornecedor, nunca deixando de inserir novos elementos e iniciativas no seu espaço, buscando sempre a união saudável entre o lucro e o crescimento do cliente. Não há nenhum problema em ser fornecedor, mas também não há perspectivas de novas frentes se abrindo no curto prazo.

Futurologia

O que acontecerá em 2017? Difícil prever. Por conta da redução geral de investimentos no país, creio que o crescimento do número de espaços diminuirá, acompanhando o temor que passamos. O mercado pode ter encontrado uma saturação no modo simples de compartilhamento de escritório, e isso vai obrigar os empreendedores dessa área a serem mais inventivos e diversificados — além de observar com muito cuidado o ambiente onde estão se inserindo.

Também prevejo que teremos mais facilidades para estes empreendedores, uma vez que estão mais próximos do poder público em algumas cidades e podem promover um uso mais efetivo de áreas abandonadas em troca de revitalização.

E será a última vez que realizamos o Censo — pelo menos neste formato. Para 2017, todos os dados virão diretamente do portal Coworking Brasil, que já está se preparando para automatizar essa pesquisa. É um trabalho que só é braçal porque não existia antes uma fonte primária para esses dados. E agora teremos.

O Movebla/Ekonomio gostaria de agradecer à parceria de sempre do portal Coworking Brasil, e ao Seats2meet.com pelo patrocínio e por acreditar no nosso trabalho.

Publicado originalmente em movebla.com em 13 de junho, 2016.